Cada uma sabe a dor e a delícia de ser uma mulher

Cada uma sabe a dor e a delícia de ser uma mulher

Coube a mim fazer o texto do LadiesOn para o Dia Internacional da Mulher.

Eu, mãe, empreendedora, dona de casa e “mil e uma utilidades” não soube o que deveria escrever em um projeto que visa dar voz às mulheres que trabalham com comunicação.

E doeu.

Doeu porque a data é para isso mesmo, para doer. Para pensarmos na posição que a mulher ocupa no mundo dos negócios, eu, que já perdi emprego por ser mulher. Para pensarmos sobre a tripla jornada de trabalho, eu, mãe de dois filhos. Para pensarmos sobre a maternidade compulsória, eu, que engravidei na adolescência. Pensarmos sobre as dificuldades de conciliar estudos e afazeres domésticos, eu, que concluí bem tarde a graduação.

Doeu porque, apesar do vivido, eu sou privilegiada por ter rede de apoio, alguma estrutura financeira, marido companheiro, pais presentes, plano de saúde, filhos com a barriga cheia e embaixo de um teto.

A imagem mostra três pessoas sorrindo, da esquerda para a direita, um adolescente de óculos, no centro uma criança pequena, à direita uma mulher.

Alec, Ícaro e eu

Doeu porque, trabalhando com comunicação, ainda há dificuldade em passar conceitos importantes ao público e aos clientes. Feminicídio? Carga mental? Tripla jornada? – “aah, vamos fazer post parabenizando as mulheres.

E ainda dói. Porque, apesar de o LadiesOn ter a missão de reivindicar nosso espaço na comunicação, não conseguimos dar voz a maioria das mulheres da sociedade. Mas podemos levantar a reflexão: o que você faz por nós, no dia a dia, de verdade?

Mãe, você foi ausente!

Mãe, você foi ausente!

Qual é a mãe melhor para os filhos? A que trabalha fora ou a que dedica a maior parte do tempo à família? A sua mãe foi boa para você? E você se considera uma boa mãe?

Tão doce, a palavra mãe parece que carrega uma culpa morfológica, tamanha a sensação que a gente tem de que nunca faz o suficiente pelos filhos. Toda essa cobrança é justa? Qual a origem dela?

Vou dividir com vocês minha experiência com meus dois filhos, Lorenzo (20) e Henrique (18). Em alguns momentos, eles já demonstraram algum ressentimento pelo fato de eu não ter sido tão presente quando eram pequenos. Meus filhos, vocês têm razão. Talvez tivesse sido bom a gente viver mais momentos de brincadeiras, de histórias, da companhia uns dos outros.

Por outro lado, eu tentava conciliar a construção de uma vida profissional digna, e para isso tinha de me dedicar muito. Talvez tenha exagerado em diversas situações, e certamente fiz a opção errada em outras. Às vezes sinto culpa e um aperto muito grande no coração por não ter visto meus filhos crescerem. Ainda bem que existem fotos que me ajudam a lembrar como eles eram nas diversas fases por que passaram.

Muitos foram os momentos em que eu cheguei cansada e sem paciência e nem disposição para contar histórias ou cantar para eles. Mas estava sempre por perto, mesmo que não por muito tempo. E o amor que sinto pelos dois ocupava todo o espaço possível.

Quando eram pequenos, fiz poucos bolos, poucos doces, raras comidinhas. Passei a me dedicar um pouco mais a isso depois que eles cresceram, e aí vi como é maravilhoso ver o filho da gente comendo e achando uma delícia coisas que nós fizemos!

Arrependimento? Não sinto. Houve uma época em que comecei a me abater por esse sentimento, e então refleti sobre como eu seria se tivesse abdicado da força que me impulsiona para ser uma profissional de comunicação. Concluí que eu não seria feliz e, consequentemente, não teria como ser uma boa mãe nessa condição. E expus esse entendimento aos meus filhos.

Acredito que muitas mulheres sejam extremamente realizadas por terem decidido de forma diferente, e respeito aquelas que preferem se dedicar aos filhos. Já minha experiência me permite afirmar que é possível conciliar a maternidade com o trabalho. Afinal, a relação entre filhos e mãe é única, íntima, dotada de uma força que só a gente é capaz de compreender.