Ainda me lembro do dia em que eu decidi que queria ser a Cleópatra. Estava na escola, era aula de história. Aquele papo de Império Romano e aí dona Neusa mostra uma foto de Cleópatra. Mulheres não apareciam muito nos livros de história das escolas públicas do subúrbio do Rio de Janeiro no fim dos anos 90. Rainha e política. Quando falavam de mulher em História era sempre esposa, filha, mãe, amante, secretária ou primeira dama. Eu, nerdona da segunda fila, fiquei passada com aquela maravilhosa com uma cobra na testa.

Saí da aula e fui na Biblioteca. Naquela enciclopédia incompleta que só os bons alunos eram autorizados a mexer eu li “política e falante de sete línguas”. Gostei dela. Eu tinha 11 anos. Eu queria ser a Cleópatra.

A dona Neusa era um ícone da escola. Bem de vida, viajada, dava aula por prazer há mais de 30 anos. Tinha um jeito peculiar de contar historias sobre a História, pois viajou o mundo todo, e era narrando as viagens que fez que nos fazia viajar também.

Na aula seguinte perguntei pela Cleópatra. Ela achou pertinente uma aula inteira sobre o Egito. Que, aliás, era a viagem favorita dela, afinal, passou lá a lua de mel. Dona Neusa contou as coisas que ninguém conta: que ela casou com o irmão, que era muito mais esperta que ele e que aprendeu várias línguas, o que fazia dela uma excelente anfitriã. Definitivamente eu queria ser a Cleópatra. Foi por causa da Cleópatra que meu pai passou sete meses sendo infernizado porque eu queria estudar inglês. Inglês, na época, era muito caro e a gente só tinha aula de “what’s your name” e “the book is on the table” na escola.

Tive a felicidade de ter dona Neusa contando sobre viagens para o Egito, Roma, Mesopotâmia, Oriente Médio e toda a Europa até o fim do ensino fundamental. Ela sempre contava as mesmas histórias dos mesmos lugares, mas sempre enriquecendo o conhecimento sobre os fatos.

Nessa época eu escrevia religiosamente em agendas cheias de papéis de bala, bilhetes, fotos, canetas coloridas e, principalmente, recortes de fotos de lugares. Outro inferno que a Cleópatra representou na vida do meu pai foi a assinatura de jornal, após dona Neusa nos levar ao parque gráfico e dizer que era importante conhecer política Internacional, emendando que a Cleópatra era uma ótima política por isso.

Às vezes, já na sétima série, dona Neusa contava sobre os romances. Contou que as pessoas são muito mentirosas, pois Cleópatra não era nenhum exemplo de beleza, mas de inteligência. Que se casou com o irmão para se manter no poder, que amou Júlio Cesar e também Marco Antonio. Mas que primeiro amou a si mesma e ao poder.

Na oitava série eu já sabia todos os podres da Cleópatra.

O Ensino Médio foi aquela experiência traumática da vida quando você precisa se comportar como adulto, mas ninguém respeita você como adulto. Com um Colégio caótico, greves, falta de professores e tendo que acordar às 5h para chegar na aula às 7h, eu estava preocupada com duas coisas: não tinha aulas de Química, o que certamente acabaria com meu futuro, pois não teria chance no vestibular e com o próximo CD do KLB que estava demorando.

Eu queria ser a Cleópatra. Mas, não deu pra virar rainha, nem diplomata; não rolou aprender sete línguas e também não consegui (por enquanto!) fazer uma chegada triunfal escondida enrolada num tapete para o Mozão;

Aqui em 2018 o mundo ainda não é fácil pra gente, Cleópatra. Tudo, absolutamente tudo, resultado de privilégios que a gente precisa sambar pra adquirir e mesmo assim… Fato é que História foi minha melhor nota no Ensino Médio, vestibulares e Enem. Foi a disciplina que, junto com redação e biologia (?) jogaram minha média para cima. Suficiente para escolher entre Letras na UFRJ e Comunicação Social na PUC-RIO, aquele momento maravilhoso da vida chamado PROUNI.

Eu tive oportunidades que não costumam ser oferecidas às pessoas que são de onde eu vim. Com elas adquiri alguns privilégios. Privilégios esses que me permitiram estudar, viajar, largar um emprego fixo e viver de freela, fazer cursos de especialização com profissionais incríveis, uma rede de contatos relevante, mudar de cidade, de estado, de vida e, por fim (ou seria por começo?), ter parte de uma empresa e comandar um time.

Olhando para o meu sonho de criança, acho até que consegui algumas das conquistas que eu personificava na figura da Cleópatra. Mas se você me perguntar hoje quem eu quero ser quando crescer eu digo: quero ser dona Neusa. Foi dona Neusa que em sua maestral paixão pelo que fazia, pelas pessoas e pela História mudou as perspectivas e, consequentemente a minha vida. Foi dona Neusa que naquele cenário desfavorável atraiu e direcionou meu interesse para que eu me desenvolvesse e com isso tivesse oportunidades; foi dona Neusa que, nos levando ao Theatro Municipal valendo ponto, me fez amar ficar indignada com La Traviatta, chorar e sonhar com a França em La Bohème. Hoje, Veneza, Paris, Egito e Roma são os lugares que mais tenho sonho de conhecer. Dona Neusa passou por todos. Hoje, meu plano de carreira é fazer um mestrado, começar a dar aulas para a graduação levando um pouco da experiência da vida para a academia. Quero ser professora, igual dona Neusa.

Eu achava que queria ser Cleópatra. Mas no fundo sempre quis ser dona Neusa. E você, é quem queria ser quando crescer?

 

 

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Empreendedora, sócia da seu agá, comunnity manager no SMXP, co-fundadora e autora no LadiesOn, entusiasta e consultora de gestão de agências digitais, atuo no mercado digital há mais de 10 anos. Tentando ser uma pessoa melhor para o mundo, reduzindo o consumo de café e plástico, aumentando o consumo de empatia. Orgulhosamente já fui finalista da 1ª Hackatona {reprograma}, mentora do Startup Weekend, co-host e palestrante do Social Media Week. 

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